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07.05.2026

Business Judgment Rule: impacto na responsabilização dos administradores nas operações de M&A

O Superior Tribunal de Justiça, em recente decisão, reafirmou a aplicação da business judgment rule, princípio de origem norte-americana segundo o qual o Poder Judiciário, em regra, não deve intervir no mérito das decisões empresariais, limitando sua atuação à verificação de que tais decisões foram adotadas pelo administrador de forma diligente, devidamente informada, leal e sem abuso ou conflito de interesses.

Em outros termos, sem a aplicação desse princípio, o Judiciário poderia analisar e julgar o mérito da decisão do administrador ainda que presentes os requisitos de diligência e boa-fé, sendo que a possibilidade de responsabilização nesses casos pode desestimular a tomada de decisões que envolvam risco, como é o caso das operações de M&A.

No contexto de operações de M&A, esse entendimento afasta a revisão judicial de decisões empresariais pelo seu resultado, seja pelo insucesso do negócio, por resultados econômicos desfavoráveis ou por divergências quanto à estratégia adotada. Se o Judiciário passa a examinar a forma como a decisão foi tomada, e não o seu resultado, a condução e a documentação da operação tornam-se o principal instrumento de proteção dos administradores envolvidos.

Contratos de M&A e a proteção contra a responsabilização do administrador

Nos contratos de M&A, a estrutura contratual passa a refletir os fundamentos da decisão, as informações disponíveis e os critérios considerados na operação, permitindo demonstrar a regularidade do processo decisório e afastar a eventual imputação de responsabilidade por atos de gestão. Esse impacto pode ser observado em alguns aspectos:

·         Cláusulas contratuais mais estruturadas: mecanismos como earn-out, ajustes de preço, indenizações e condições                        precedentes funcionam, em conjunto, como registro da forma como a operação foi construída, representando os                              parâmetros considerados pelas partes no processo decisório;

·         Maior precisão na redação contratual: a definição de condições objetivas e claras previamente estabelecidas não                          apenas reduz ambiguidades, mas restringe interpretações divergentes e delimita o espaço para eventual                                            responsabilização do administrador;

·         Valorização da diligência prévia: a due diligence deixa de ter função apenas investigativa, consolidando-se também                      como instrumento essencial de suporte à decisão do administrador, ao documentar o nível de informação                                          disponível no momento em que foi tomada e demonstrar a observância aos deveres de diligência e lealdade.

Nesse contexto, contratos bem estruturados e processos decisórios adequadamente fundamentados tornam-se centrais não apenas para a viabilidade da operação e sua sustentação no pós-closing, mas também para a proteção jurídica dos administradores em relação aos atos de gestão praticados.

A consolidação da business judgment rule pelo Superior Tribunal de Justiça, portanto, contribui para um ambiente mais previsível e seguro à tomada de decisões estratégicas em operações de M&A, que envolvem, por natureza, risco e incerteza.

Karoline Gonçalves Bruno

Advogada ZNA